Selvagem #198
Não saber nomear o que chega e mesmo assim colocar no mundo.
Amanhã,
***Pequenas notas sobre o criar ***
- Não saber nomear o que chega e mesmo assim colocar no mundo.
- Selvagem. O que vem depois?
- São 17:16hs, ando na esteira elevada para sentir que estou no maior esforço, ao fundo gemidos de homens nem tão musculosos assim e um som ambiente típico de lugares fingidamente animados. Ali, nos passos rápidos da velocidade 6.3 Patti Smith me conta que sentada de frente para a vista do mar tomava seu Nescafé e refletia sobre os acontecimentos dos últimos dias. Era ano novo, 2016, e muitas coisas a levavam naquela profunda introspeção. A forma como descreve sua interação com o mundo me toca, mais que isso, um entendimento maior. Quase presunçoso a ponto de dizer “eu sei do que você está falando”. A identificação de uma artista com as palavras de outra artista se dá pelas entrelinhas. Aquelas que são lidas na sua particularidade e principalmente, no que raramente se explica, mas sente. Sinto-me sentada ao seu lado contemplando o mar e dali me retiro apenas pelo fato de que já são 17:31hs e preciso buscar a criança na escola.
- Observo os animais como quem olha para algo profundamente rico. Sempre foi assim. Um certo fascínio, interesse carregado de desejo de entendimento – Sentir – para além da minha espécie. Selvagem. Ou quem sabe, disruptivo. Tenho por mim que são nas estranhezas que encontramos o que afinal, nos torna humanos.
- Meus cabelos grisalhos aumentaram exponencialmente nos últimos meses. Penso no tamanho da irrelevância disto, ao passo que percebo que a minha opinião é no mínimo, minoritária.
Me sinto menos humana às vezes. Os assuntos do meu interesse se mostram estranhos para o quase todo, enquanto os assuntos de interesse da maioria são quase sempre chatos e entediantes para mim. Penso nesses questões com uma frequência maior do que gostaria e bem, não tenho ainda algo relevante a opinar. A selvageria espera.
- Sonhei que um besouro bem pequenininho pousava em minha perna enquanto eu lia um livro sobre abelhas sentada em um banco ao sol. Ambos partilhávamos a luz e o sonhar. Dentre tantos sonhos no mínimo profundamente simbólicos que me visitam todas as noites, são besouros pequenininho que me prendem, é sobre eles que quero falar.
- Tenho me abdicado de sentidos muitos – Minha vida não comporta mais a lógica. Serei eu compreendida? Não sei dizer. O que me compete é fazer a minha parte: Ser.
- Selvagem – O que nasce sem precisar ser explicado.
O que acorda – pois nascido já era a muito. O que é. Sentiu?
- Criei uma playlist com o título: Selvagem – ali estão músicas que ninguém sabe que ouço. Não por segredo, mas pela delícia de possuir algo meu e tão somente meu – preservado do restante do mundo.
- Amanhã, você também suspira alto quando entende certos pormenores da vida e percebe que não tem obrigação de contar a ninguém?
- Três coisas que chegaram até mim:
Gozar do saber. Admitir a mim mesma que de muitas lágrimas nascem também, coisas fantásticas.
Ser muito mais do que dizem sobre mim. Me achar sim a última bolacha. Ser.
O fogo que me habita se manifesta através da minha clareza, presença e em especial, coerência.
Notas sobre o criar. Expandir. Ser. Selvagem.
Com curiosidade e afeto,
Ana Margonato
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Semana que vem trarei uma edição especial para minhas apoiadoras. Ainda não decidi o formato, aguardem!!!
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As inscrições para o novo ciclo do Nós Laboratório de escrita já estão abertas. Vamos explorar a sustentação dos processos através da escrita.
O que está lhe pedindo que seja sustentado?
Me escreva para saber mais.
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Gostei disso: "um som ambiente típico de lugares fingidamente animados".
E disso: "Ser muito mais do que dizem sobre mim. Me achar sim a última bolacha. Ser".
Fragmentos que atravessam como faíscas!