Um corpo #189
Adentrar seu território, eis-me aqui.

Amanhã,
Um corpo,
Acima de tudo. Um corpo.
Adentrar seu território, eis-me aqui.
Muito em breve atinjo a marca de 40 primaveras pisando esta terra e observando este céu. Numa espécie de rito de passagem, revejo conceitos, certezas, padrões. De forma bastante irritante, a vida me pede sinceridade e eu, sem ter muito para onde fugir, atendo seu pedido.
Me observo no espelho: Um corpo. Sinais visíveis e irrefutáveis de seios que deram o seu melhor como fonte de alimento a outro ser e o que sobrou deles, bem, não se encaixam exatamente no que chamaria de belo. Pernas grossas e cheias de cicatrizes, carregam história, muitas histórias, nem todas interessantes, algumas lembradas com presença e afeto. Um ventre que me lembra que a pele se estica para caber outra vida dentro dela e que isso, bem, deixa suas marcas. Um cabelo que nasce fértil, com vontade própria e da cor que bem entende. Um rosto que me mostra que desde sempre, amei o sol e que ele provavelmente me ame de volta, pois deixa sua assinatura ali de forma indiscutível.
Um corpo. Funcional, vívido, e bem e forte, por assim dizer, para quem já está na ativa a quase 40 anos. Porém, haaaa esse porém, ele ressoa feito um mosquitinho chato, aquele que você pensa que matou, mas minutos depois surgem mais três, ainda mais barulhentos e irritantes.
Adentrar o território do corpo - com verdade e entrega - requer idas e vindas desconfortáveis.
“Há quem diga que a alma anima o corpo. No entanto, e se resolvêssemos imaginar por um instante que é o corpo que anima a alma, que a ajuda a se adaptar à vida concreta, que analisa e traduz, que fornece o papel em branco, a tinta, a pena com os quais a alma pode escrever nas nossas vidas? Suponhamos, como nos contos de fadas em que as coisas mudam de forma, que o corpo é um Deus por si só, um mestre, um mentor, um guia autorizado. E daí? Seria prudente passar a vida inteira torturando esse mestre que tem tanto a dar e a ensinar? Desejamos passar a vida inteira permitindo que os outros depreciem nossos corpos, julguem-nos, considerem-nos defeituosos? Será que temos força suficiente para renegar o pensamento geral e prestar atenção, com profundidade e sinceridade, ao nosso corpo como um ente poderoso e sagrado?” (Clarissa Pinkola estes – Mulheres que correm com os lobos).
Um ente poderoso e sagrado. O que carrega toda vida. Pois bem Clarissa. Paro e ouço a voz que claramente estava ali, falando aos ventos. Falar, ele sempre fala, mas nós ouvimos?
“O poder cultural DO corpo é a sua beleza, mas o poder NO corpo é raro, pois a maioria das mulheres o expulsou com torturas ou com sua vergonha da própria carne”. (Clarissa Pinkola estes – Mulheres que correm com os lobos).
Não faço ideia de como aprofundarei não apenas o diálogo, mas a conexão, o sentir. Apenas sei que: Quero. E isso há de ser chama, força e ação.
O corpo chama. E eu vou.
Com curiosidade e afeto,
Ana.
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Um corpo é história, e envelhecer nos ajuda a entender as marcas que vão aparecendo como lembranças das nossas vivências. Linda reflexão, Ana ♥️
Vai, minha amiga! Vai em direção a ti mesma. Há que ser bonito esse encontro com a sua potência. Um novo território está prestes a ser descoberto.